Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador Capão do Bispo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Capão do Bispo. Mostrar todas as postagens

domingo, 25 de março de 2012

ADEUS AO CAPÃO DO BISPO


Saudosa maloca, maloca querida
Dim dim donde nóis passemos os dias feliz de nossas vidas
Adoniram Barbosa


Colegas, amigos e parceiros, 

No próximo mês faz um ano que iniciamos a luta por nossa permanência na Casa do Capão do Bispo. Já deveríamos ter saído dali em agosto de 2011. Com ajuda de muita gente (petição, blog, facebook, abraço a Casa, mensagens eletrônicas e cartas enviadas a Secretária de Cultura, etc.) conseguimos postergar, mas não mudar a decisão do Estado: esta foi nossa última semana no Capão, ele esta vazio, já retiramos todo o material... Pois é, não conseguimos, apesar de toda a luta, reverter a situação. Faltaram algumas coisas: não tivemos apoio da imprensa (saíram duas matérias no O Globo - logo no início -, uma matéria em um jornal do bairro e uma matéria na Revista de História da Biblioteca Nacional), embora tenhamos procurado insistentemente espaço na mídia (jornal, tv, rádio). Faltou também apoio político (porque isso, no fundo, é uma decisão política - ou politiqueira): conseguimos apenas apoio do Deputado Paulo Ramos (mas que também não avançou muito); os órgãos institucionais que regulam a arqueologia no Brasil, também não deram o apoio desejado ou necessário. Tivemos bastante apoio da Defensoria Pública da União no RJ, através do Dr. Daniel Macedo e do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos da Defensoria Pública do Estado, através da Dra. Samantha de Oliveira, no sentindo de resguardar o material que a Casa abrigava e conseguir mais tempo junto ao Estado. A justificativa era sempre que o Estado é dono do imóvel e tinha todo o direito de nos retirar da Casa. Isto nunca foi contestado. Mas, a questão era muito mais profunda: era da importância e do significado social e cultural de nossa presença ali. A discussão, portanto, ia além de um direito de propriedade. Sobretudo, faltou maior compreensão, maior boa vontade da Secretaria de Cultura e do Estado. Em nome de uma política de estado, estabeleceu-se a intransigência, a recusa em negociar. Por vezes, parecia que o processo se tornara algo pessoal. Contudo, como ressaltou Giordano Bruno, somos muito inocentes, ao esperar que aqueles que detêm o poder, reformulem o poder.
O que será feito com a Casa, após a nossa saída, não sabemos, isto, a Secretaria nunca deixou claro. As respostas foram sempre evasivas, tipo "vamos fazer um concurso junto à população para ver o melhor destino da Casa", como se isto fosse democrático (na verdade mostra apenas que não sabem o que fazer ou não querem dizer). O IAB e nós saímos de lá, mas o patrimônio histórico que é a Casa permanece. Deve-se também enfatizar que, independente das opiniões (sim, porque há pessoas que acham que devíamos sair da Casa mesmo), a decisão do Estado acaba com um centro de formação de pesquisadores importantíssimo: foi ali que aprendemos arqueologia. Diversos pesquisadores ali formados estão espalhados pelo Brasil. 
Hoje, isso tudo acabou. Não adianta ficar com subterfúgios: fomos derrotados na intenção de permanecer na Casa.
Nossa luta, porém, continua: ela agora se dá em outro nível, na busca de um local onde possamos retomar tudo que fazíamos no Capão do Bispo Estamos a procura. O que nos foi oferecido, até agora, não atendia nossos desejos. Perdemos a Casa, mas descobrimos uma força que não sabíamos ter, ganhamos uma união ainda maior, o que nos faz lançarmo-nos a novos caminhos, novas buscas.
Todos já devem ter ouvido falar, da profecia maia de que o mundo irá acabar em 2012. Mas, isso é só um aspecto da profecia. Na verdade, os maias, assim como outros povos da Mesoamérica, acreditavam que o mundo já havia acabado pelos menos três vezes, sempre em função de grandes cataclismos. Eles estavam no quarto mundo, que teria o mesmo destino dos anteriores. Se pararmos para pensar, de fato, onde os maias viviam o mundo já acabou diversas vezes: são terremotos, grandes erupções vulcânicas, furacões, enchentes, etc.
Contudo, os maias também acreditavam que, cada vez que o mundo era destruído, ele renascia aprimorado, melhor. Pensem em um vulcão: quando ele entra em erupção, causa uma grande destruição, acaba com tudo. Porém, ao mesmo tempo, deixa uma camada de solo novo, onde a vida renasce muito mais viçosa. Era assim que os maias viam o eterno mecanismo de destruição e renascimento, sempre ressurgindo aprimorado. Não necessariamente um aprimoramento material, mas moral, espiritual.
Nosso mundo também parece ter acabado. Mas, ele ressurgirá, acreditem, e aprimorado. Não começaremos do zero, porque levaremos conosco nossa história, nosso conhecimento, nossa experiência, nossa determinação e nossos sonhos. E, “sonho que sonha só, é só um sonho. Mas, sonho que se sonha junto, é realidade” , já disse o Raul!
Agradecemos, profundamente, a todos aqueles que estiveram juntos de nós nessa empreitada, que nos apoiaram, incentivaram, compreenderam e lutaram conosco. Não nos abandonem, ainda temos muito que fazer, coisas muito boas ainda virão.

CONSTRUÍREMOS UM CAPÃO DO BISPO CEM VEZES MAIS BONITO!

A minha casa está onde está o meu coração
Ele muda, minha casa não
No campo, em minas, terras gerais ou qualquer lugar
Onde estou, a minha casa está
Samuel Rosa – Chico Amaral

Paulo Seda
Arqueólogo 

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Por que funciona o Centro de Pesquisas Arqueológicas na Casa de Fazenda Capão do Bispo


A Casa da Fazenda do Capão do Bispo, imóvel tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN em 1947, localiza-se na Avenida Dom Hélder Câmara, 4616, Del Castilho e pertence ao Patrimônio Imobiliário do Estado do Rio de Janeiro. A Casa é ocupada desde 1974 por um Centro de Pesquisas Arqueológicas, organizado entre o então governo estadual e o Instituto de Arqueologia Brasileira, IAB.

A instalação do Centro de Estudos Arqueológicos – CEA (publicada no D.O. de 14 de janeiro de 1974) objetivou uma utilização que buscasse um aproveitamento cultural efetivo e, sobretudo, compatível com a importância do espaço tombado. Em conseqüência, foi ativado o convênio de cooperação entre o Governo do Estado e o Instituto de Arqueologia Brasileira (processo nº E 13.700/241 de 10 de setembro de 1973), que culminou com o Termo de Ajuste, elaborado pela Procuradoria do Estado da Guanabara e assinado entre as partes em 22 de janeiro de 1974 (publicado no D.O. de 28 de janeiro de 1974), pelo qual foi permitida cessão de uso da Casa de Fazenda do Capão ao Instituto de Arqueologia Brasileira.
O Termo de Ajuste celebrado entre o Estado da Guanabara e o IAB acordava a atuação conjunta a fim de organizar e promover a instalação de exposições de arqueologia e um programa de desenvolvimento de pesquisas e divulgação da arqueologia brasileira. Nesse documento o Estado se comprometeu a fornecer o local e demais instalações em imóvel do seu patrimônio, necessários ao cumprimento do acordo supracitado. O IAB, por sua vez, se comprometeu a fornecer material técnico para a instalação e funcionamento dos laboratórios de pesquisa, montagem de biblioteca e mapoteca especializadas, além de profissionais qualificados que pudessem atuar na pesquisa, ministrando cursos, palestras, organizando eventos para divulgação dos referidos estudos.
Até então, o Capão do Bispo, estava sendo ocupado como um abrigo coletivo para cerca de 60 famílias. A partir da reforma e assinatura do Termo de Ajuste transformou-se em um centro de formação de pesquisadores e referência científica para a Arqueologia Brasileira.
Tendo expirado o prazo de cinco anos, estipulado pelo Termo de Ajuste em 1979, foi imediatamente proposto ao Estado a sua renovação (Processos nºs 03/568/79 ou 15.994/79. O então secretário de Educação e Cultura manifestou-se verbalmente quanto a não necessidade da referida renovação, visto ter sido cumprido o objetivo cultural do termo, ou seja, o de instalar e fazer funcionar um centro de pesquisas; portanto, não se justificaria estabelecer novo convênio de cooperação, estando o centro em plena atividade. No entanto, o IAB vem desde então, mantendo a referida solicitação, por meio de processos encaminhados, objetivando o estabelecimento de colaboração mútua em bases mais eficazes.
Deve-se ressaltar que, em todos estes anos, mesmo com o Termo de Ajuste a muito expirado, nunca deixamos de cumprir nossas obrigações com a Casa, mantendo-a funcionando e atendendo aos pesquisadores e vizinhança. Apenas, nos últimos anos, tivemos que desativar a exposição, em função das condições do telhado fronteiriço. Contudo, acabamos de obter autorização para seu conserto, com verba advinda de nossas pesquisas.