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terça-feira, 17 de abril de 2012

TEORIA ARQUEOLÓGICA, GÊNERO E DIFERENCIAÇÃO SOCIAL NA PRÉ-HISTÓRIA BRASILEIRA: A TRADIÇÃO UNA - 1. O Contexto Histórico

GLÁUCIA MALERBA SENE
Instituto Brasileiro de Pesquisas Arqueológicas
Profa. Colaboradora do PPG em Arqueologia, Museu Nacional, UFRJ
PAULO SEDA
LEPAma – Lab. de Est. E Pesq. da América Antiga/NUCLEAS – Núcleo de Estudos das Américas, UERJ
Instituto Brasileiro de Pesquisas Arqueológicas


1. O CONTEXTO TEÓRICO


A utilização de teorias na prática da arqueologia representada em primeiro lugar a possibilidade de trabalharmos cientificamente a partir de problemas e não apenas a partir dos vestígios encontrados. Utilizando explicitamente teorias, podemos em um primeiro momento identificar e definir uma problemática, bem como tentar explicá-la buscando uma solução (KERN, 1991, p.52).

            O momento atual da arqueologia caracteriza-se por uma grande quantidade de profissionais trabalhando de acordo com postulados teóricos que começaram ser pensados a partir da década de 1960, ou seja, o Processualismo e o Pós-Processualismo, derivados da New Archaeology (cf. BINFORD, 1962; WILLEY, SABLOFF, 1993; TRIGGER, 1989; RENFREW, BAHN, 1996). Verdade que muitos pesquisadores continuam a fazer suas análises e interpretações a partir de pressupostos teóricos de períodos anteriores, mas, de fato, também sofrendo influência da Nova Arqueologia.
            O homem interage com seu tempo e conseqüentemente coteja todas as formas de conhecimento veiculadas; no entanto, a escolha de uma ou mesmo algumas teorias, quando complementares, implica uma consciência científica. Tal escolha é fundamental, pois será a teoria que direcionará, ao nível das idéias, todo o trabalho de pesquisa, análise e interpretação dos dados.

A Arqueologia Processual


            Os primeiros passos para a formação da base teórica do Processualismo foram dados por Joseph Caldwell, em 1959, quando publica o artigo “The new american archaeology”, citando os crescentes estudos na área da ecologia e padrões de assentamentos, o que evidenciava um novo interesse ¾ os processos culturais. Para ele, o objetivo primário da arqueologia deve ser explicar as mudanças em culturas arqueológicas e em termos de processos culturais (cf. TRIGGER, op.cit.).
            BINFORD (1962.) acrescentou outros elementos para criar uma nova corrente teórica que, desde aquela década, tem sido reconhecida como a Nova Arqueologia Americana. Segundo ele, a arqueologia pertence ao campo da Antropologia para a qual ela tem dado grandes contribuições, principalmente na explanação das diferenças e similaridades para o entendimento dos sistemas culturais passados.

A explanação de diferenças e similaridades entre complexos arqueológicos deve ser feita através de um conhecimento atualizado sobre as características estruturais e funcionais dos sistemas culturais (BINFORD, op.cit., p.218).

            A partir disto, podemos perceber que o processualismo adotava como base uma estrutura sistêmica de referência, apoiando-se na Teoria Geral dos Sistemas (cf. BERTALANFFY, 1950). A partir de então, a arqueologia passou a produzir um grande número de publicações, relacionando-a aos sistemas humanos, cujos dados originam-se das pesquisas arqueológicas.
            Algumas adaptações foram feitas à teoria inicial dos sistemas para que se adequasse ao contexto arqueológico, mas, de uma maneira geral, sua estrutura básica foi mantida. RENFREW (1984, p.253), ressalta que Binford introduz tal teoria na arqueologia de maneira muito genericamente, sendo CLARKE (1968) quem fornece um esboço preciso da análise de mudanças sistêmicas aplicada à arqueologia, que até hoje permanece como o melhor.

Alguma coisa que consiste de partes conectadas dentro de um todo será chamada sistema. O que conecta os componentes deste sistema particular são as ações entre estas três classes: homem, artefato, objeto natural (...). Os componentes do sistema não são apenas os membros da sociedade, mas os artefatos que eles fazem ou que eles usam (incluindo os não materiais) e todos os objetos na natureza com os quais eles entram em contato (RENFREW, op. cit., 259).

            Influenciado por Leslie White e por Malinowski, BINFORD (op. cit.) definiu seu modo sistêmico com base em três componentes (subsistemas): o técno-econômico, o social e o ideológico, sendo o segundo determinado pelo primeiro. RENFREW (op. cit., p. 262-4) propôs, por sua vez, a existência de cinco subsistemas, a saber: o de subsistência, o tecnológico, o social, o simbólico e o de comunicação e comércio.

Para representarmos a cultura como um sistema ou como uma parte de um sistema, é útil considerar não só os artefatos, mas os membros da sociedade que os produziu, o ambiente que habitaram e outros artefatos (incluindo os não materiais tais como os sistemas lingüísticos e simbólicos) que eles criaram ou usaram (RENFREW, op.cit., p.262-4).

            Portanto, a chave do processo de desenvolvimento cultural está necessariamente nas inter-relações entre as variadas atividades do indivíduo na sociedade, ou melhor, nas interdependências dos subsistemas da sociedade. Esta característica dos sistemas humanos, através da qual uma inovação (e sua aceitação coletiva) num subsistema favorece uma ou mais inovações em outro, pode sustentar um prolongado crescimento ¾ efeito multiplicador. É naturalmente ao nível do indivíduo que este efeito atualmente opera: através dele, as pressões sociais, por exemplo, adquirem uma significação econômica, pois os vários subsistemas da cultura estão vinculados ao nível do indivíduo.
            STICKEL (op. cit.) foi quem enfocou de forma mais completa a teoria dos sistemas, acrescentando características holísticas, ausente nas abordagens anteriores. Segundo ele, o modelo holístico incorpora variáveis tanto da cultura (cultura material ¾ os artefatos e não material ¾ as idéias) quanto da biologia humana.
            De acordo com LIMA (1991, p.17), a perspectiva holística enfoca o homem (sua biologia e seu comportamento cultural) e seu ambiente específico, de forma mutuamente dinâmica. Através dela, o homem e seu meio compõem um sistema organizado que inclui outras populações e ainda elementos inorgânicos. Esta perspectiva esteve praticamente ausente da abordagem sistêmica de BINFORD (op.cit.), que caracteriza a mudança dentro de um modelo linear ¾ ambiente influencia cultura. Na visão holística, “as populações humanas se vêem como parte do ecossistema” (WILLEY, SABLOFF, op. cit., p.225).
            BELL (1992), ressalta que a expansão do holismo no mundo contemporâneo deve-se, sobretudo, as teorias marxistas, ao ocuparem-se de elementos ideacionais ¾ pensamentos, idéias, crenças religiosas e outros fatores cognitivos ¾ em relação dialética com elementos materiais da estrutura econômica[1]. Para ele, as teorias processuais também são um exemplo bem conhecido de explanação holística, pois são teorias que normalmente assumem que as causas de mudanças transcendem a ação humana. De outro lado, as abordagens sistêmicas, que explicam a mudança mais em termos da dinâmica interna (do sistema) que por fatores externos, têm sido particularmente preferidas pela maioria dos arqueólogos processualistas. No entanto, Bell reconhece que o enfoque holístico por si só não pode apreender completamente o universo complexo que caracteriza a vida humana.
            SHANKS e TILLEY (1994) alertam que as abordagens teóricas que visam a compreensão do passado pré-histórico devem ser mais individualistas que holísticas. Ademais, também criticam a teoria dos sistemas ao assinalarem:

Não é possível separar o ambiente da sociedade, o externo do interno, cada um define o outro. A economia não pode ser separada da política, e este do ritual (...). A economia, que está ao mesmo tempo presente e ausente na política e no ritual, está estruturada como um espaço ritual e político (...). Nós rejeitamos qualquer simples separação a priori estabelecida entre economia, política e ideologia (op.cit, p.122).

            Dentro do enfoque sistêmico, STICKEL (op.cit.) define os seguintes componentes: (1) o biológico ¾ consiste em todos os remanescentes humanos, representados pelos corpos humanos total ou parcialmente preservados, tecidos, esqueletos, coprólitos, cabelos, etc; (2) o material ¾ consiste dos itens não humanos, tais como objetos, flora, fauna, etc; (3) o técno-econômico ¾ consiste na busca e transporte das matérias-primas, seu processamento, seus processos de manufatura, seu uso, suas técnicas de construção, sua manufatura e seu reparo e seu abandono; (4) o sociológico ¾ consiste na organização dos membros de um grupo dado em vários agrupamentos, considerados apropriados para a execução das atividades necessárias para a manutenção do sistema humano; (5) o ideológico ¾ consiste de todos os fenômenos relacionados às idéias ou às informações contidas dentro das mentes dos vários indivíduos do componente biológico do sistema humano, dentre eles: as crenças, as doutrinas, a magia, os rituais, a música, as artes, o conhecimento científico, etc; (6) o psicológico ¾ consiste da habilidade e do impulso criativo do indivíduo que podem criar novas idéias e, conseqüentemente, inovações e invenções e (7) o comunicacional ¾ consiste de todas as formas de comunicação humana, tais como: linguagem falada, escrita e de sinais, sons, danças e várias formas de expressão corporal. Este último, tratando-se de pré-história, dificilmente será possível conhecê-lo e interpretá-lo, o que é perfeitamente possível dentro dos estudos antropológicos, etnológicos e históricos. O autor acrescenta que o enfoque sistêmico mais holístico fornecerá, então, à arqueologia um poderoso instrumento interpretativo.
            A relação entre os sistemas humanos e o meio foi muito explorada nesta corrente teórica e realmente isto faz sentido à medida que nenhuma cultura pode ser estudada sem que seu ambiente também o seja. Sendo assim, a Ecologia Cultural veio a ocupar uma parte importante do corpo teórico do processualismo. “Esta visão não deve ser pensada como um determinismo ambiental, porque nós a assumimos como uma relação sistêmica entre o organismo humano e seu ambiente no qual a cultura é a variável de intervenção” (BINFORD, 1962, p.218).
            Julian Steward (apud ARNOLD, 1985, p.13) foi pioneiro no estudo da ecologia cultural, cuja abordagem procura generalizar as diferenças e similaridades pela análise das relações entre as tecnologias culturais e ambientes particulares. O autor utilizou o conceito de núcleo cultural, definido como:

uma constelação de traços mais estreitamente relacionados com as atividades de subsistência e com a organização econômica, incluindo os padrões sociais, políticos e religiosos cuja íntima conexão com tais atividades pode ser determinada empiricamente (LIMA, op.cit., p.18).

            Contudo, muitas críticas surgiram ao seu estudo, dentre elas: um certo determinismo tecnológico, pouca ênfase dada aos aspectos mentais e ritualísticos da cultura e a relação entre cultura e biologia (cf. MENEZES, 1998, p.13). A par destas críticas e muitas outras não citadas, o pressuposto básico da ecologia cultural pode ser assim melhor sintetizado: “o homem, por intermédio da cultura, manipula e dá forma ao próprio ecossistema” (KAPLAN, MANNERS, 1975, p. 21).
            Os antropólogos de um modo geral fazem uma diferenciação entre cultura material e não material. Segundo HOEBEL (1982, p.228-9), “a cultura material é sempre produto direto da ação e consiste de bens tangíveis, tais como artefatos e produtos da tecnologia. Já a cultura não material corresponde ao comportamento humano em si”.
            O estudo da cultura material tomou grande impulso com o processualismo, a ponto de surgirem estudos teóricos específicos sobre processos de formação do registro arqueológico. Parte-se do princípio que o dado arqueológico consiste de materiais em relações estáticas, que foram produzidos por sistemas culturais e sujeitos à atuação de processos não-culturais. Desta forma, “o registro arqueológico é uma reflexão distorcida do sistema de comportamento no passado” (SCHIFFER, 1976, p.12).
            Segundo MENEZES (op.cit., p.112-3) assim poderíamos entender cultura material: “aquele segmento do meio físico que é socialmente apropriado pelo homem; que tem nos artefatos seu principal contingente, considerados como produtos e vetores de relações sociais”.
            Reconhecendo a importância do registro arqueológico, BINFORD (1989, p.56-7) acentua:

a arqueologia deve tornar-se uma ciência relacionada com a compreensão do significado do padrão observado no registro arqueológico... de um sítio ou coleção de materiais arqueológicos de uma região.

            Além dos dados provenientes do registro arqueológico, uma outra fonte de informações foi considerada pelos processualistas ¾ a etnografia. Segundo eles, ela poderia fornecer generalizações e leis para o comportamento humano passíveis de serem aplicadas às culturas passadas como modelos interpretativos.
            LUMBRERAS (1981, p.31), por sua vez, entende a etnografia como informação que contribui para entender a variabilidade da conduta humana. Já BINFORD (op.cit.), como um neo-evolucionista, acreditava que o alto grau de regularidade do comportamento humano poderia ser revelado em estudos etnográficos comparativos. Tais regularidades, então, poderiam ser usadas para inferir muitos outros aspectos das culturas pré-históricas que não podiam ser completamente observadas no registro arqueológico. Não se opõe ao uso dessas analogias etnográficas, mas elas não podem ser consideradas como a chave principal para a compreensão dos processos de continuidade e mudança no sistema humano.
            WILLEY e SABLOFF (op. cit), no entanto, diferenciam analogia histórica específica e analogia comparativa geral. A primeira, mais conhecida como analogia etnográfica, opera dentro da perspectiva da existência de um continuum entre os tempos pré-históricos e os históricos em uma dada área; a segunda, também etnográfica, tem seus pontos de referência localizados no comportamento humano observado, como, por exemplo, as características gerais que definem os grupos humanos como caçadores-coletores e horticultores, embora sejam inúmeras as peculiaridades contextuais.
            LEROI-GOURHAM (1986) e DUNNELL (1971) (apud TRIGGER, op.cit., p.366) alegam que a estreita relação entre arqueologia e etnografia tem encorajado a propagação de interpretações arqueológicas deficientes. Segundo eles, “o registro arqueológico deve ser compreendido por seus próprios termos”. CLARK (1985, p.25), ao contrário, enfatiza:

Os modos de pensamento, as línguas, as formas de organização social e os valores das sociedades fossilizadas no registro arqueológico, já não existem e, portanto, não podem nos ajudar a interpretar o que recuperamos do solo. A informação etnográfica, ainda que também incompleta e suscetível a erros de interpretação, complementa os dados da arqueologia na medida em que se baseia no estudo de comunidades que têm continuado operando até um passado próximo.

            Sem dúvida, o valor da etnografia para a arqueologia é imenso. Contudo, seu papel restringe-se à ampliação do universo das hipóteses e à sugestão de novas possibilidades interpretativas para o estudo dos sistemas culturais passados.
            Uma outra característica do Processualismo é a utilização do método hipotético-dedutivo. Segundo WATSON, LEBLANC e REDMAN (1971), a formulação e confrontação de ‘leis’ hipotéticas gerais conferem um caráter científico à arqueologia.
            Na medida em que a dedução é um procedimento que parte do geral para o particular, conseqüentemente as hipóteses são certas proposições gerais que visam predizer acontecimentos particulares. Estas, por sua vez, podem ser aceitas ou refutadas quando confrontadas com o resultado da pesquisa. No entanto, os pressupostos não confirmados são tão importantes quanto os não confirmados, e em nenhum momento depreciam o trabalho.

As hipóteses são necessárias para dirigir a investigação, para determinar que dados adicionais devem ser corrigidos e para guiar a análise dos dados (WATSON, LEBLANC e REDMAN, op.cit., p.32)

Uma inferência dedutiva pode chegar a uma conclusão final se possuir como premissas uma teoria e uma série de condições iniciais, ou conjunto de conhecimentos anteriores, que estabelecem uma situação ou contexto (POPPER, 1978, p.28-30)

            Segundo TRIGGER (op. cit., p.327), ainda que New Archaeology tenha defendido o estudo de todos os aspectos dos sistemas culturais, as publicações científicas indicam que a maioria de seus seguidores concentrou-se no estudo dos padrões de subsistência, do comércio e, em menor escala, da organização social. Talvez sua maior deficiência tenha sido acreditar na uniformidade dos sistemas culturais e que ela podia ser medida pela identificação dos problemas ecológicos.
            Muitas críticas foram projetadas sobre o processualismo, diversas tinham e têm fundamento. No entanto, não podemos pensar na New Archaeology enquanto uma corrente teórica que se encerra em si. Ao contrário, ela vem sendo repensada e as muitas críticas têm contribuído para isto.
            Desta forma, o corpo teórico do processualismo continua a ser redefinido, na medida em que os pesquisadores-fundadores aperfeiçoam-se, descartando os pressupostos teóricos incoerentes. Se as idéias e interpretações sobre as sociedades passadas estão hoje mais coerentes e mais bem fundamentadas cientificamente, talvez assim estejam pela contribuição incontestável da arqueologia processual.




A Arqueologia Pós-Processual


            Surgindo através de Ian Hodder, na Inglaterra, e de Mark Leone, nos Estados Unidos, e incorporando uma variedade de influências, incluindo o marxismo, o estruturalismo, a hermenêutica, o pós-positivismo, o idealismo, a história e, de modo especial, o feminismo, a Arqueologia Pós-Processual criou o ambiente intelectual ideal para o desenvolvimento por completo dos estudos de gênero."Certamente, a arqueologia de gênero levanta a questão do reconhecimento da variabilidade individual no passado" (WILLEY, SABLOFF, op.cit., p. 301). Portanto, os pressupostos teóricos da Arqueologia Pós-Processual e Arqueologia de Gênero constituem primordialmente a base de sustentação científica de nossa abordagem.
            Com base em todas estas influências teóricas, o pós-processualismo enfatiza que a relação entre cultura material e comportamento depende das ações dos indivíduos dentro de contextos históricos culturais particulares (cf. HODDER, 1984, 1986, KOHL, 1993).

A cultura material não apenas existe. É feita por alguém. É produzida para fazer alguma coisa. Então, ela não reflete passivamente a sociedade, ela cria a sociedade através das ações dos indivíduos (...). Cada objeto arqueológico é produzido por um indivíduo (ou um grupo deles), não por um sistema social (HODDER, op.cit., p.6-7).

            Sem os indivíduos e suas práticas sociais, as sociedades não existiriam (SHANKS, TILLEY, op.cit.). Estes autores também discorrem sobre a cultura material, considerando-a como uma “objetificação do ser social”. Para eles, a cultura material não deveria ser concebida como um elemento passivo que reflete meramente as relações sociais, mas como resultado da articulação entre o social e o individual. Assim, o maior desafio com o qual se confronta o arqueólogo é atribuir significação a objetos aparentemente estáticos e sem significado.
A cultura material só pode ser realisticamente interpretada a partir de totalidades sociais e individuais dentro de contextos espaço-temporais definidos (SHANKS, TILLEY, op.cit., p.132).

            YOFFEE e SHERRATT (1993) consideram que a cultura material não pode ser vista como um mero reflexo do comportamento, na verdade, ela simboliza a relação entre as pessoas e as coisas. Dentro desta mesma perspectiva, CSIKSZENTMIHALYI (1993) enfatiza que o artefato é o produto da intencionalidade humana e o seu uso simbólico mais freqüente é para promover a permanência das relações que definem o indivíduo na rede social.

Para usar os objetos feitos pelo homem como fontes para a história e para outras ciências sociais, nós temos de lê-los, uma metáfora para interpretá-los (...). É essencial conhecer o que os objetos significam para as pessoas que os produziram e os usaram. Estas leituras de objetos sempre devem ser acrescidas pelo que as pessoas dizem e escrevem sobre eles. Os objetos podem iluminar as palavras, mas eles não podem substituí-las (MAQUET, 1993, p.39-40).

            É clara, portanto, a limitação imposta aos arqueólogos, pois a verdadeira compreensão do significado dos objetos, perpassa o universo humano real, principalmente a linguagem, a qual já não temos mais acesso. Assim o referencial social ao invés do individual continua mais atual do que nunca no campo da pesquisa arqueológica como propuseram os processualistas.
            BRAITHWAITE (1984, p.107 apud TRIGGER, 1989, p.341) considera que a compreensão do papel da cultura material no ritual e as práticas de prestígio são o primeiro passo importante na reconstrução de outras dimensões de mudanças e padrões representados no registro arqueológico. O ritual nesta perspectiva tem a função de reafirmar as relações sociais existentes, fazendo-as aparentar ser parte da ordem natural ou valorizar o poder de grupos ou indivíduos privilegiados.
            Grande parte dos pós-processualistas critica a forma pela qual a teoria dos sistemas foi utilizada na arqueologia processual, especificamente por Binford, pois componentes ideológicos ou ideacionais, por exemplo, não foram considerados.

As divisões feitas entre subsistência, comércio, sociedade e simbolismo podem não ser apropriadas para as sociedades passadas. A divisão, baseada em leis, pode dar um peso igual a todos os subsistemas, mas, na prática como temos visto, os subsistemas materiais são dominantes (YOFFEE, SHERRATT, op. cit., p.26).

            Da mesma forma que o processualismo, também o pós-processualismo destacou a importância do contexto, definindo-o como:

a totalidade de dimensões relevantes de variação ao redor de qualquer objeto, que forma uma rica rede de associações e contrastes. Esta rede de relações pode ser lida, após uma análise cuidadosa, a fim de alcançar uma interpretação do seu conteúdo significativo (HODDER, 1984, p.143-53).

            O estudo das similaridades e diferenças pode ser realizado através do tempo, definindo-se continuidades, e ao longo do espaço, identificando-se significados simbólicos e funcionais e a estrutura de distribuição dos objetos. Neste sentido, o simbolismo atribuído a um objeto é simplesmente a descrição de aspectos de seu contexto e uso (cf. HODDER, op.cit.).
            Dentro da perspectiva simbólica, Leslie White (1949 apud MOLINO, 1992, p.19) acentua que “o homem não é tanto um animal racional, mas um animal simbólico que cria símbolos ao mesmo tempo em que cria instrumentos”. Assim, “os homens nem representam nem refletem o mundo, eles o constroem através dos símbolos” (SHANKS, TILLEY, 1994, p.19).


            Parece evidente que o processualismo minimizou o papel do indivíduo dentro do sistema humano. No entanto, a valorização individual da maneira como é colocada pelos pós-processualistas, encontra no contexto funerário sua manifestação mais visível, através das variáveis relevantes para o estudo de gênero na pré-história e conseqüentemente diferenciação social.

Para interpretarmos em arqueologia (...) deveríamos prestar a devida atenção ao papel que as pessoas ou grupos distintos ocupam na história, com sua respectiva consciência, representações, crenças, sistemas de valores sejam eles individuais ou coletivos (GARDIN, 1992, p.93).
A evidência arqueológica mais direta para o estudo de sexo e gênero na pré-história vem das análises de enterramentos, pois quando estão disponíveis no registro arqueológico podem fornecer informações sobre sexo em termos biológicos e gênero em termos de diferenciação social através dos acompanhamentos funerários (RENFREW, BAHN, 1996, p.207).

            Com esta perspectiva interpretativa YOFFEE e SHERRATT (op. cit.) e SHANKS e TILLEY (op. cit.) definem a arqueologia, considerando-a como uma ciência interpretativa na qual os símbolos, as ideologias e as estruturas de significado não são meramente reflexões de como os homens tratam com as variações do ambiente.
            Quanto ao uso da analogia etnográfica, HODDER (op.cit.) acredita que elas não são confiáveis, porque se as coisas e sociedades tanto no presente quanto no passado são semelhantes em alguns aspectos, isto não significa que elas sejam em outros. “Se nós interpretamos o passado por analogia ao presente, nós nunca descobriremos as formas de sociedades e culturas que já não existem hoje” (HODDER, op.cit., p.14).
            Posteriormente, Hodder não se mostra mais tão arredio ao uso pela arqueologia do que ele chama de conhecimento etnográfico. Segundo ele, “o conhecimento etnográfico simplesmente contribui para a imaginação histórica, incitando novas perspectivas e teorias alternativas” (op.cit., p.148). Esta aparente aceitação decorreu talvez pelo fato de que foram as analogias etnográficas que lhe permitiram desenvolver estudos denominados etnoarqueológicos, que tinham como base à comparação de sítios arqueológicos recentes com seus respectivos produtores numa mesma área. Diversos estudos etnoarqueológicos foram realizados por ele na América do Norte e na África.
Autores como YOFFEE (1994), SHANKS e TILLEY (op. cit.) não demonstram tanta aceitação pelos estudos etnográficos aplicados à arqueologia, pois para eles uma sociedade enquanto configuração única possui características próprias, que não se repetem e, portanto, não são passíveis de serem comparadas ao longo do tempo e do espaço. “Nenhum processo de mudança em longo prazo no passado pode ser adequadamente modelado, baseando-se em observações do presente em curto prazo” (YOFFEE, op.cit., p. 9).

            No que se refere ao método, HODDER (op. cit.) reconhece a necessidade de se estabelecer uma base teórica bem estruturada, mas utilizando procedimentos tanto dedutivos quanto indutivos. SHANKS e TILLEY (op. cit.) não acreditam também que um único método, especificamente o hipotético-dedutivo, possa ser determinado para a arqueologia.

A compreensão do passado é um processo dialético ocasionado por ajustes contínuos de idéias, conceitos e representações e não é algo que possa ser fixado por um único método tal como o hipotético-dedutivo (SHANKS e TILLEY, op.cit., p.108).


[1] Para maiores informações sobre a influência do marxismo na arqueologia americana ver : GILMAN, Antonio. Marxism in American Archaeology. 

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