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terça-feira, 17 de abril de 2012

TEORIA ARQUEOLÓGICA, GÊNERO E DIFERENCIAÇÃO SOCIAL NA PRÉ-HISTÓRIA BRASILEIRA: A TRADIÇÃO UNA - Considerações Finais



GLÁUCIA MALERBA SENE
Instituto Brasileiro de Pesquisas Arqueológicas
Profa. Colaboradora do PPG em Arqueologia, Museu Nacional, UFRJ
PAULO SEDA
LEPAma – Lab. de Est. E Pesq. da América Antiga/NUCLEAS – Núcleo de Estudos das Américas, UERJ
Instituto Brasileiro de Pesquisas Arqueológicas



CONSIDERAÇÕES FINAIS


Durante muito tempo, o modo de vida na pré-história foi visto como uma grande igualdade. Mais que isso, mesmo que entre grupos horticultores se admitissem diferenças hierárquicas, era um modo de vida onde o indivíduo não encontrava lugar.
Para LIMA (2001), a grande razão disto residiria no fato de os modelos utilizados pelos arqueólogos sustentarem-se, sobretudo, no evolucionismo cultural da antropologia de meados do século XX, privilegiando modos de subsistência e adotando tipologias evolutivas. O foco excessivo no econômico e a dominância de modelos tecno-ambientais teriam trazido limitações conceituais, uma vez que o processo de diferenciação social não é passivo e outros agentes de mudança precisariam ser considerados.
Ainda segundo LIMA (2001) é, principalmente, nos anos 90 que este panorama teria começado a mudar, com diversos estudos alterando substancialmente a antiga perspectiva.

O que está em discussão e no centro das atenções, no momento, não é a desigualdade propriamente - de vez que ela é considerada inerente à natureza humana e reconhecida em todas as formas de organização social (Flanagan, 1984:260) ao longo de dimensões como sexo, idade e habilidades pessoais - mas sim a sua institucionalização. Ou seja, o surgimento de hierarquias, agora ao longo de outras categorias, como parentesco e classe (Price, 1995:130), marcando a diferenciação entre status adquirido e status atribuído. A questão, portanto não é quando a desigualdade surgiu, já que ela existiu sempre, não tendo havido um estado de igualdade utópica do qual os indivíduos emergiram para posições diferenciadas. Mas sim quando ela foi intensificada, formalizada, institucionalizada, vale dizer, quando as diferenças passaram a ser herdadas e reproduzidas socialmente. Este é o ponto crítico da diferenciação social e foi essa institucionalização que forneceu as bases para o desenvolvimento de formas sociais e políticas mais complexas (LIMA, op. cit., pág. 2).


Boa parte do pensamento atual na arqueologia procura retirar o foco do sistema e focar o indivíduo, como fundamental no processo de desigualdade: sem deixar de se considerar aspectos econômicos, ambientais, tecnológicos, passa a ser considerada capacidade dos indivíduos - pelo menos alguns - de implementar ou iniciar mudanças, através de diferenciação de status, liderança, acumulo de informações, etc.
            Os restos arqueológicos permitem construir um sistema de oposições (fogueiras com restos alimentares, em contraposição a fogueiras sem restos alimentares; cerâmica decorada, em contraposição a cerâmica simples, por exemplo), que não tem, contudo, significados sociais absolutos. Assim, talvez a principal questão com que a arqueologia se depare seja como ultrapassar as propriedades perceptíveis dos objetos (ou restos) e identificar suas características sociais. Como já observado, os restos arqueológicos são sempre residuais e lacunares. Ocorre, porém, que esses restos são desigualmente lacunares, devendo-se distingui-los em conjuntos fechados e abertos.
Persiste, contudo, um certo “ranço” de que uma série arqueológica, mesmo que representativa de uma cultura, não permitiria compreendê-la em termos de processo, ou seja, as relações entre cultura material e processo social só seriam inteligíveis com a ajuda de outras fontes. A arqueologia moderna, porém, recusa à distinção entre elementos materiais e não materiais de uma cultura, entendendo que as informações sociais estão presentes tanto nos objetos quanto na linguagem.

Os limites práticos de nosso conhecimento do passado não são inerentes à natureza da informação arqueológica. Tais limites resultam de nossa ingenuidade metodológica e da ausência de princípios que permitam avaliar, com relação aos vestígios arqueológicos, o caráter pertinente de sugestões quanto ao processo e quanto a acontecimentos do passado (BINFORD e BINFORD, 1968, 23).

            Assim, os limites da arqueologia resultariam dos métodos empregados, não das características de seus materiais. Para ultrapassar essas barreiras, é necessário questionar conceitos já estabelecidos e desenvolver novas estratégias. Em síntese, o que as abordagens atuais preconizam é que o conjunto de estruturas e objetos que a escavação revela deve ser visto como conjunto de informações com propriedades definidas, que precisam ser consideradas espacialmente e temporalmente, através de feedbacks, associando as relações verificadas às características dos materiais e buscando para cada relação à sua função. Utilizando ainda informações externas à escavação, torna-se possível reconstituir o processo e os modos culturais da sociedade em estudo. A isto, acrescenta-se, mais modernamente, o papel do indivíduo nestas sociedades.
Neste sentido, os estudos de gênero têm, sem dúvida, um lugar de destaque.
            De forma bastante interessante, podemos identificar como um dos primeiros estudos de arqueologia de gênero, embora este termo não fosse empregado, a interpretação de LAMING-EMPERAIRE (1962) e LERROI-GOURHAN (1965) para Arte Franco-Cantábrica, em que vêm nos painéis rupestres das diversas grutas estudadas uma dualidade sexual (“Dualismo Universal”), onde as representações de bovídeos (que ocupam posição central) seriam símbolos femininos e as representações de cavalos (posição periférica) símbolos masculinos.[1]
            Contudo, evidentemente, são os sepultamentos e os rituais funerários que podem fornecer mais subsídios, dados e até mesmo certezas para os estudos de gênero na pré-história. São, sobretudo, eles (acompanhados de perto pela arte rupestre) que permitem fazer uma ponte mais curta entre os restos e suas características sociais, entre cultura material e não material: eles nos falam do pensamento, das crenças, das identidades, dos status, dos comportamentos e do papel social dos indivíduos, enquanto membros de um grupo, enquanto crianças, jovens, adultos ou velhos, enquanto homens e mulheres.
            Desta forma, a valorização do indivíduo e, por extensão, dos estudos de gênero na arqueologia, trazem não só novos subsídios, como também contribuem para tornar mais humanas as sociedades que estudamos.


[1] LAMING-EMPERAIRE, op. cit., pág. 201 admite a possibilidade da oposição bovídeo-cavalo representar não a expressão de uma dualidade de sistema de mundo, mas sim de um sistema social.

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